Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

- Eu não me lembro de quando decidi ser jornalista. 
- Quando penso nisso chego à conclusão de que é o que sempre quis ser. 
- Lembro-me de a minha madrinha me pegar ao colo e de ver, da janela de casa dela, a ESCS. 
- Ela dizia: "Depois, quando estiveres a estudar para ser jornalista, vais andar naquela escola". 
- Lembro-me que me fazia confusão pensar que para se ser jornalista seria preciso estudar. 
- E que ao mesmo tempo me excitava a ideia de andar numa escola cheia de jornalistas. 
- Acho que ainda nem sabia o que era escola, quanto mais... - Lembro-me de que quando entrei para a escola e aprendi a juntar letras, pegava nas canetas (que faziam de microfone) e lia o jornal em voz alta. 
- Era eu a apresentar as notícias. 
- Lembro-me de filmar o meu pai e a minha mãe imaginando que seria um cenário qualquer digno de grande reportagem.
- No 12º ano não havia dúvida nenhuma, era jornalismo e mais nada! 
- Comunicação Social, Ciências da Comunicação... não eram hipóteses. Era jornalismo e era na ESCS! E foi. - A minha mãe queria que eu fosse arquitecta, o meu pai dizia que se eu tirasse farmácia ele me comprava o estabelecimento. - Que estúpida que fui... - Durante o curso senti, muitas vezes, que o jornalismo era nobre! 
- E que a nobreza era um passo para mudar o Mundo. 
- Durante o curso dava por mim sentada a admirar aquelas pessoas e a querer ser como elas... o conhecimento do Mário Mesquita, a genialidade do Paulo Moura, a grandiosidade do Sena Santos... - Mas o sonho acabou e quando acordei estava num mundo de desemprego, de estágios não remunerados, de pessoas a quererem aproveitar-se de recém-licenciados jornalistas, de pessoas que sabem que podem abusar de quem não tem uma muito boa cunha. - Estive em algumas publicações, colaborei (e colaboro) noutras, percebi como rodavam os estagiários, trabalhei sem me pagarem, fiz trabalhos bons, maus e assim-assim. 
- Mas nada daquilo era nobre. 
- De repente via-me com pessoas a discutirem temas para possíveis reportagens... "Pretos??? Vamos dar voz a um preto? Mas isso é inédito, nós nunca falamos com eles"... 
- Eu calava-me. 
- Os meus temas nunca interessariam. - Hoje tenho ódio do jornalismo (de toda essa máquina que, de facto, é o jornalismo). 
- Hoje tenho dois empregos (um num Gabinete de Imagem e Comunicação e outro a assessorar Mestrados e Pós-Graduações) e ganho muito bem - tendo em conta o que se ganha hoje em dia.
- Hoje não me venham dizer para não desistir, que isso já fiz há muito e o pior é que nem foi por vontade própria mas porque as circunstâncias assim obrigaram. 
- Hoje deixei-me infectar pela falta de nobreza e só me interessa ganhar dinheiro com o meu trabalho. - Hoje detesto trabalhar e acho que quem diz que gosta mente. - E a minha mãe, ontem, dizia-me: "Secalhar se estivesses mesmo a fazer jornalismo ias gostar". - ... ela não acordou do meu sonho. - Eu fiquei a pensar nas palavras dela... e acho que não. 
- Do que conheci achei tão pouco positivo que não posso dizer que gostava de ser jornalista para sempre. - Mas o meu sonho era rádio, e rádio eu nunca fiz. 
- Deixei a mãe ficar no meu sonho, e tranquilizei sem acreditar em nada do que dizia: "Se fosse rádio..." - Apaguei a luz e fui dormir.

17 comentários:

  1. respiro fundo.

    foi "desgostando" do 'dialogo' enquanto o lia, comecei por gostar muito, depois só gostei, depois gostei pouco, depois não gostei e no fim, no fim simplesmente fiquei triste.

    Sempre foi o teu sonho e desanimaste. Nao vou fazer o que dizer,desculpa mas nao consigo, acho mesmo q nao deves desistir, sempre achei. E sim agora tens dois trab, mas isso nao impede q continues a procura (ok, nao ha mto q procurar, mas pelo menos estar atenta). Um dia talvez apareça algo. E detestas nao o jornalismo, mas aquilo em que se tornou o jornalismo nos dias que correm, é diferente. Um dia, qdo tu (e outras pessoas que, como tu, sonham com um jornalismo nobre) tiveres um trab como jornalista vais, pouco a pouco, por o teu grao de areia para o transformar e para que o jornalismo seja aquela coisa marvilhosa com que sonhavas.
    Como chegaste a esse ponto? como fechaste tanto o teu coraçao que nao o sintas agora a bater quando te lembras do mario mesquita, do "paulinho" moura ou do sena santos que tanto admiravas, como é possivel q os teus olhos nao brilhem quando recordas as historias que ouvias nessas salas onde tiveste de estudar para ser jornalista? Onde está aquela "joana dalila santos", que fazia com que eu ficasse colada ao banco do c2 a ouvir relatos de aulas e actividades?

    Não mudaste assim tanto. Sei que no fundo, bem lá no fundo, continuas a acreditar no jornalismo, continuas a gostar, simplesmente desististe de lutar, de procurar, e até mesmo de sonhar. Só espero que não te esqueças que é o sonho que comanda a vida.

    És a minha radiante! E, um dia, não vais ser só minha.

    [e agora que me excedi um pouco, e tambem para aliviar as coisas, digo-te isto, daqui a umas horitas vamos tar com o Vin ;) ]

    ResponderEliminar
  2. São as conversas que também tenho, e muito, comigo mesmo... onde falas de jornalismo, falaria eu de ciência e nao mudaria uma virgula do que dizes...
    Beijoca grande :)

    ResponderEliminar
  3. Tive de parar e comentar... eu sei o que é odiar o que fazemos... mas eu gostei um dia, daquilo que fazia, portanto também sei o que é amar o que faço. Enfim, daria um enorme post... mas gostarmos do que fazemos é bom... e eu nunca mais fui capaz de esquecer isso... hoje luto todos os dias para voltar a amar o meu trabalho, peço sugestões para fazer as coisas de maneira diferente, não sei... acho que por vezes depende até mais das pessoas que trabalham connosco do que do trabalho em si. Eu acho que a minha luta de alguma forma tem rendido frutos e mais tarde ou mais cedo acho que vou reconquistar esse prazer (alguma maneira eu hei-de arranjar)... se não foste para jornalismo, talvez fosse porque isso não te faria feliz, mas enquanto tiraste esse curso sucederam coisas e aprendeste coisas que não teriam sucedido e não terias aprendido se não o tivesses tirado... eu seria incapaz de ser jornalista, precisamente pela sujeira que por lá vai... o ensino tem problemas cada vez mais graves, mas mesmo assim trabalha-se na base da honestidade (pelo menos até onde eu tenho visto)... e tem-se uma missão nobre, enfim, educar os meninos e tal... eu ao princípio achava que ia ser uma nódoa como professora, sempre me expliquei muito bem, mas tinha grandes dificuldades de relacionamento com o mundo... o curioso é que acho que foram precisamente os miúdos que me ajudaram a superar isso... enfim, mudei!! Os dois primeiros anos da minha carreira, entre outras coisas, mudaram-me... muito mais haveria a dizer sobre o que aqui escreveste, mas gostaria de acrescentar apenas mais uma coisa... desistir é um acto de coragem, de vez em quando; exige bom senso e é coisa que pessoas obcecadas e obstinadas como eu por vezes desconhecem, enfim... mas felizmente, apesar de tudo, não me tenho dado mal com a mania de não desistir... mas por pouco, eu tenho essa noção... :-))

    Beijinhos, parabéns pelo post.

    ResponderEliminar
  4. Sabes o que eu penso em relação a isso...

    ;)

    beijo!

    ResponderEliminar
  5. Jay Dee,
    Pois ainda assim acho que a mãe é capaz de ter razão! E não deixe cair o sonho... e isto, sem deixar de fazer o que tem que ser feito para assegurar o básico.
    Quanto a dizer que "quem diz que gosta de trabalhar mente" devo dizer-lhe que não estou de acordo! Por duas vezes nesta minha existência, de já meio século, disse e digo que gosto de trabalhar:
    - A primeira porque o que fazia na altura (há cerca de 20 anos) me agradava(ainda que não a 100%) e além disso era bem pago (tendo em conta o nível dos salários de então).
    - A segunda agora mesmo, ou seja desde 2006,
    porque o que faço faço com prazer e porque o meu trabalho é reconhecido de forma directa por aqueles com quem trabalho e tb porque os horários são "flexíveis" deixando-me bastante tempo livre. Além disso não tenho nem chefes nem colegas à "perna"!
    E isto apesar da minha actual actividade nada ter a ver com a minha grande paixão: A ESCRITA!
    É evidente que a maior parte de "nós" trabalha porque é a única forma de assegurar a sua subsistência não encontrando nisso qualquer prazer! E embora poucas, pessoas há que gostam de trabalhar simplesmente porque tiveram a felicidade de conseguir trabalhar em áreas de que gostam (com paixão)!
    Mas percebo e respeito a tua desilusão e sobretudo revolta com que a transmites neste teu texto!
    Força... e oxalá venhas a conseguir trabalhar na rádio!
    Um abraço/Laura

    ResponderEliminar
  6. Dalila,
    Achei bonita essa tua ideia romantica e fixa de seres jornalista. E tenho pena que a crueldade do mundo real te tenha destruido o sonho. Talvez se hoje fosses dona de uma farmácia...
    Mas foi esse o caminho que quiseste seguir, por isso nunca desista do teu sonho, e tenta colocar em foco essa tua ideia de fazeres rádio. Se direccionares todas as tuas energias nesse sentido, vais ver que um dia consegues.
    Força.
    Bjs.

    ResponderEliminar
  7. Comungo com seu dizer até tocado pelo quanto está ele próximo ao que sinto, jornalista e radialista fora do mercado de trabalho. Motivo: muita decepção.
    Cadinho RoCo

    ResponderEliminar
  8. Saudades das "guerras" de ti contra ti... :) Beijinhos!

    ResponderEliminar
  9. Dalila,
    Deixo-te um beijinho à minha passagem por aqui.

    ResponderEliminar
  10. Passei para ler as novidades

    e deixar cumprimentos

    ResponderEliminar
  11. Esticaste o pernilongo? :)

    Boas férias!

    ResponderEliminar
  12. Dalila,
    Aproveito a minha passagem por cá hoje, para te desejar um bom fds XXL.
    Bjs.

    ResponderEliminar
  13. José António:

    Neste ano de 2010, que todos possamos dar passos no caminho do discernimento, da mudança de Paradigma do “ter” para o “SER” e começarmos e conseguir ver cada Ser Humano como uma ALMA num corpo físico e não, como até aqui, como um corpo que “tem” uma alma…

    Isabel:

    Celebremos com gratidão os que nos deixaram em 2009.
    O meu desejo para 2010 é de que tenhamos DISCERNIMENTO para distinguir o que é ESSÊNCIAL daquilo que apenas o parece, que tenhamos BONDADE a lidar com todos, inclusive connosco próprios, que tenhamos CORAGEM para respondermos aos Desafios e eventuais dificuldades que surjam, como OPORTUNIDADES de CRESCIMENTO e de SERVIÇO ao BEM COMUM e que se REALIZEM os nossos MELHORES e MAIS BELOS SONHOS!

    ResponderEliminar
  14. Hmmmm... Rádio é muito stressante.

    ResponderEliminar

Responde... a mim ou... a mim