- Quando penso nisso chego à conclusão de que é o que sempre quis ser.
- Lembro-me de a minha madrinha me pegar ao colo e de ver, da janela de casa dela, a ESCS.
- Ela dizia: "Depois, quando estiveres a estudar para ser jornalista, vais andar naquela escola".
- Lembro-me que me fazia confusão pensar que para se ser jornalista seria preciso estudar.
- E que ao mesmo tempo me excitava a ideia de andar numa escola cheia de jornalistas.
- Acho que ainda nem sabia o que era escola, quanto mais... - Lembro-me de que quando entrei para a escola e aprendi a juntar letras, pegava nas canetas (que faziam de microfone) e lia o jornal em voz alta.
- Era eu a apresentar as notícias.
- Lembro-me de filmar o meu pai e a minha mãe imaginando que seria um cenário qualquer digno de grande reportagem.
- No 12º ano não havia dúvida nenhuma, era jornalismo e mais nada!
- Comunicação Social, Ciências da Comunicação... não eram hipóteses. Era jornalismo e era na ESCS! E foi. - A minha mãe queria que eu fosse arquitecta, o meu pai dizia que se eu tirasse farmácia ele me comprava o estabelecimento. - Que estúpida que fui... - Durante o curso senti, muitas vezes, que o jornalismo era nobre!
- E que a nobreza era um passo para mudar o Mundo.
- Durante o curso dava por mim sentada a admirar aquelas pessoas e a querer ser como elas... o conhecimento do Mário Mesquita, a genialidade do Paulo Moura, a grandiosidade do Sena Santos... - Mas o sonho acabou e quando acordei estava num mundo de desemprego, de estágios não remunerados, de pessoas a quererem aproveitar-se de recém-licenciados jornalistas, de pessoas que sabem que podem abusar de quem não tem uma muito boa cunha. - Estive em algumas publicações, colaborei (e colaboro) noutras, percebi como rodavam os estagiários, trabalhei sem me pagarem, fiz trabalhos bons, maus e assim-assim.
- Mas nada daquilo era nobre.
- De repente via-me com pessoas a discutirem temas para possíveis reportagens... "Pretos??? Vamos dar voz a um preto? Mas isso é inédito, nós nunca falamos com eles"...
- Eu calava-me.
- Os meus temas nunca interessariam. - Hoje tenho ódio do jornalismo (de toda essa máquina que, de facto, é o jornalismo).
- Hoje tenho dois empregos (um num Gabinete de Imagem e Comunicação e outro a assessorar Mestrados e Pós-Graduações) e ganho muito bem - tendo em conta o que se ganha hoje em dia.
- Hoje não me venham dizer para não desistir, que isso já fiz há muito e o pior é que nem foi por vontade própria mas porque as circunstâncias assim obrigaram.
- Hoje deixei-me infectar pela falta de nobreza e só me interessa ganhar dinheiro com o meu trabalho. - Hoje detesto trabalhar e acho que quem diz que gosta mente. - E a minha mãe, ontem, dizia-me: "Secalhar se estivesses mesmo a fazer jornalismo ias gostar". - ... ela não acordou do meu sonho. - Eu fiquei a pensar nas palavras dela... e acho que não.
- Do que conheci achei tão pouco positivo que não posso dizer que gostava de ser jornalista para sempre. - Mas o meu sonho era rádio, e rádio eu nunca fiz.
- Deixei a mãe ficar no meu sonho, e tranquilizei sem acreditar em nada do que dizia: "Se fosse rádio..." - Apaguei a luz e fui dormir.

